Quando estava fazendo minha mudança, achei que tivesse pensado em tudo, pedindo receitas extras dos remédios que tomo. Acontece que cheguei aqui, acabou a sertralina, e eu tive o prazer de descobrir que não se vende remédios controlados com receita de outro estado. Aparentemente, só eu ainda não sabia disso.

Pra resolver isso logo, peguei o endereço do hospital do convênio e fui lá trocar minhas receitinhas. O processo foi rápido, me indicaram exatamente o prédio onde ir (não duvido que exista um setor só para troca de receitas na cidade) e lá me disseram para subir até o último andar e falar com o doutor Matusalém, o único que realizava tal procedimento.

Ao entrar na sala, já tive uma impressão de estar num consultório de cidade do interior, que tem vários quadros religiosos e os mandamentos da medicina. A secretária, de pink da maquiagem às roupas, ouvia Domino Dancin’ no talo, e fazia uma lista de músicas do Pet Shop Boys, sabe-se lá prá quê. Antes eu soubesse que essa seria a parte divertida da tarde.

Logo fui encaminhada para a sala do médico, um senhor de aproximadamente 275 anos, magrinho, enfiado atrás de uma montanha de papéis. Se minha avó entrasse naquela sala, ouviríamos o famoso “é papel, é papelzinho, é livro, é agenda, é guia, é caneta, é…”.

De lá de trás da bagunça, veio a vozinha de velho dele: “passa a receita aqui”. Nem precisei explicar, acho que essa era a especialidade dele. “Sertralina? Sertralina eu passo. Sibutramina eu não recomendo nem ao meu pior inimigo” – e jogou a receita na minha direção. Eu devia ter saído naquela hora, porque logo em seguida o discurso começou:

– Isso aqui é remédio de gente preguiçosa! Olha prá você, preguiçosa, muda de vida, vai fazer exercício! Sobe na balança! Quanto você mede?
– Um e sessenta e três…
– Um e SETENTA? Tá magra! Me diz quanto tá dando aí?
– (não digo nem sob pena de morte)
(não digo nem sob pena de morte) + 10?
– Não, (não digo nem sob pena de morte).
– Tá vendo? Não vou te dar sibutramina, arrume um que te passe.

Depois dessa gritaria toda – porque foi tudo aos berros – ele anotou meu endereço errando TODOS os números e me dispensou. Saí de lá horrorizada, mas não desisti da minha sibutraminazinha. Preguiçosa é a mãe dele, se é que ele não nasceu no terceiro dia da Criação.